matériaMais!

Velocidade: a verdadeira vilã das decisões conscientes

Entenda o porquê de nem sempre fazermos as melhores escolhas.

8 de novembro de 2019

Um dos livros mais interessantes sobre como nossa mente funciona é o citadíssimo “Rápido e Devagar, duas formas de pensar” de Daniel Kahneman. O autor nos apresenta conceitos muito esclarecedores sobre nossa mente, e que eu associo a outros estudos para entender melhor como penso, como posso tomar decisões mais assertivas.

Em um breve resumo da obra de Kahneman, podemos dizer que há duas formas de pensar: uma rápida e instintiva, automática, que ele chama de “Sistema 1”, e outra mais lenta, consciente e racional, que ele denomina como “Sistema 2”. Sempre que precisamos decidir rapidamente, agimos por instinto, inconscientes, por outro lado quando precisamos tomar decisões mais complexas, levamos um tempo maior para processar as informações que temos e então escolher quais ações adotar. Óbvio que a obra é bem mais abrangente, mas de imediato, tal resumo serve para ilustrar nossa reflexão.

Um outro estudo importante que gostaríamos de citar é um estudo de Michael S. Gazzaniga, que pesquisando o funcionamento do cérebro com hemisférios separados, descobriu informações relevantes sobre o livre-arbítrio e nossa capacidade de fazermos escolhas. Gazzaniga descobriu que nós temos um modo em nossa consciência que ele chamou de “o interprete do cérebro”, que “costura” as informações sensoriais do nosso corpo com memórias, desejos e emoções, elaborando um roteiro em formato de história para que possamos memorizar e justificar nossas escolhas. Como o Átila Iamarino conta no vídeo “Temos livre-arbítrio” do canal Nerdologia no YouTube, mais do que livre-arbítrio, nos temos a livre-justificativa, isso porque nosso cérebro nos cria uma ilusão de que agimos conscientemente 100% do tempo, o que não é verdade. Muitas, se não a maioria de nossas decisões são inconscientes, mas nosso cérebro por sua capacidade de linguagem e sua racionalidade nos engana, fazendo-nos acreditar que essa racionalidade e linguagem sobrepõem nosso inconsciente.

O que concluímos por estes dois estudos, é que quando tomamos uma decisão muito rapidamente, estamos agindo por impulso, de forma inconsciente e automática, porém, nosso cérebro registra a decisão sob um contexto justificável, para que aceitemos e acreditemos que tal decisão foi a melhor possível. Beijamim Libet, neurocientista, certo estudo descobriu que muitas decisões começa nos membros e só depois são registradas no cérebro. Ou seja, muitas vezes nosso corpo decide agir por impulso, mas como Gazzaniga explica, nosso cérebro segundos depois inventa uma história para registrar a ação como uma memória que faça sentido para nossa consciência, mesmo que essa história seja uma ilusão.

A neurocientista Carla Tiepo, autora de diversos livros e pesquisas, que também foi minha professora em um curso de pós-graduação pela PUCRS, explica as conclusões de Libet de outra forma, porém com a mesma maestria, e alguns avanços a mais no campo da neurociência, quando ela explica os diversos tipos de memórias que temos, como a memória procedural, e as diversas funcionalidades que cada região do cérebro possui.

Talvez a essa altura você esteja se perguntando: será que minha mente me engana? ou será mesmo que eu não estou 100% no controle de minhas escolhas? A resposta que temos é: acredite! A ciência, através de diversos estudos e autores já provou que sim. Nós, não somos tão racionais quanto pensamos. Infelizmente, nossa capacidade de linguagem, toda nossa capacidade intelectiva nos cria a ilusão filosófica de que somos a imagem e semelhança de “Deus”, e tão oniscientes quanto “Ele”, e isso nos faz esquecer que ainda somos animais, muito evoluídos em comparação à maioria das outras espécies, porém ainda animais que pela escala cósmica e natural de bilhões de anos de evolução, ainda somos uma espécie jovem em termos de consciência e linguagem, por isso ainda nos guiamos por instintos como os outros animais.

A neurociência desponta hoje com novas descobertas a cada dia, e assuntos muito importantes ao nosso dia a dia, como o estudo das conexões cerebrais que criamos quando aprendemos algo novo, e como isso pode ser visualizado em um conectoma. É incrível o quanto isso nos é útil na condução de nossas vidas, carreiras, relacionamentos e ações. E, ao contrário do que parece, não é algo complexo e pouco usual, mas sim, é algo simples e prático. Como ter a comprovação científica daquilo que nossos avós já sabiam, quanto mais rápido decidimos, mais chances temos de colocar “a carroça na frente dos bois” ou “enfiar os pés pelas mãos”. A velocidade com que decidimos determina se tomaremos decisões conscientes, ou se agiremos por impulso e inventaremos uma justificativa para acreditar que aquela foi a melhor decisão para o momento.

Como diz um escritor e grande colega de profissão: mais uma vez a escolha é sua!

Texto: Ricardo Bortoli - CADENC


Veja Mais! de Matéria



twitterMais!

facebookMais!